Trezencena

 

Sobre Mandingas e Marias

Dramaturgia: O grupo, colaboração de Vítor Queiroz.

 

2015


CENA 1: Prólogo

(Amontoado de Ossos enquanto o público entra no espaço. Black out. Sons do eclipse: passarinhos, sons metálicos, gritos muito agudos.)


CENA 2: Sierva e Martina

Sierva: Ossos, vida minha. Calcanhar todo sujo de terra. Bilongo! Mandiga!

Martina: Quero saber quem eles são, como são.

Sierva: O que dizes?

Martina: Nada...

Coro: Minha esperança é em ti...

Martina: A minha esperança é em ti, criança, e em teus demônios. Quero saber quem eles são, como são. Quero negociar com eles.

 Sierva: Tenho seis: Asmodeo, Carreau, Maria Padilha, Astaroth, Sonneillon e Exu Tranca Rua!

Martina: Esse eu conheço! Quero falar com ele, dou minha alma em troca.

Sierva: Ele não fala. Basta olhar dentro dos seus olhos de cão, e já sabes o que quer dizer.

 

CENA 3 – Parto

(Quatro Siervas Marias se encontram deitadas, cada qual frente a uma plateia, em posição fetal)

Bernarda: Criança dos infernos! (As Siervas nascem)

Dominga: É uma menina, não vai sobreviver.

Bernarda: Dê um jeito, negra! Parido já está... o monstro. Decide tu o que dele hás de fazer...

Coro: Ciénagas debaixo do altar, minha cabeleira, ali, inteira, bem no fundo do-

Dominga: Ai meu Deus, Olorum didê! Faz a criança viver, meu pai do céu. Daí então eu prometo, cum santo spiritu! Ô minha Nossa Senhora do Parto. Ó, se ela viver seus cabelo tudo só vai ser cortado no dia do casamento, vu? O manto da virge Maria, serva do Divino, um mar de cabelo profumado, inteirinho. (Siervas respiram) Sua filha será santa!

Marques: Será puta! Guardai vossos cuidados, Dominga!

(Dominga começa a cantarolar “Duerme Negrito”, Siervas levantam-se e caminham para o centro da cena, todas cantam)

Duerme, duerme, negrito
Que tu mama está en el campo, negrito

Duerme, duerme, mobila
Que tu mama está en el campo, mobila

Te va traer codornices
Para ti.
Te va a traer rica fruta
Para ti
Te va a traer carne de cerdo
Para ti.
Te va a traer muchas cosas
Para ti.

Y si el negro no se duerme
Viene el diablo blanco
Y zas le come la patita
Chacapumba, chacapumba, apumba, chacapumba.

(Três, das quatro, Siervas saem de cena)

Coro: Ai, meu calcanhar, um espinho, uma flor-de-abrir-caminho. Arre, t´esconjuro! O que é que eu trago aqui dentro guardado? A primavera?

Dominga: Ah! Eu não devia te levar pra feira. Mas deixa estar! Hoje é o dia do teu aniversário, não é, nhá Maria? Então simbora, menina. Ninguem tá nem aí pra gente! (Saí carregando Sierva Maria nas costas)

CENA 4 – Feira

Vendedor de Carne: Pobre mi negra, dicen que siempre La han viso llorar! (Entra lavadeira) Epa, epa, epa! Mas se não é a dona Maria! Como que a senhora tá, dona?! E esse bebê aí, sai pra quando?

Lavadeira: É pra dois meses, mas se o senhor continuar batendo assim, sai agora!

Vendedor de carne:  Mai ele tá dentro da senhora faz um tempão! Ah! Dona Maria é um sarro!

(As figuras da feira entram em cena aos poucos, e o fundo sonoro vai se formando. Algumas frases serão sublinhadas, dentre elas)

Vendendor de Lundus: Cãozinho de Sofala! Abrecuidados. Vilhancicos de Espanha. Cumbé e paracumbé. Arretira-te, Giganta! Eu hei de te Amar até Morrer, Lia de Itamaracá, Odara. Cãozinho de Sofala! Arretira-te, Giganta!

Vendedora de frutas: Olha a goiabada, queijo minas, doce de leite!

Peixeiro: Faz desse jeito, na manteiga. É certeza, arenque é tiro e queda.

Hortelão: Cachos e mais caixas de uva pimenta graúda

Lavadeira: É seda, algodão e brim!

Vendedora de lenços: Olha o lenço, lenço bonito, lenço bordado!

Escrava: Kikiriribu, Mandinga!

Vendedora de verduras:  Ó, o milho verde!

Vendedora de colares: Ó, o colar!

(Caridad entra em cena com Sierva Maria cantando “Quando cheguei aqui nessa cidade...”)

Caridad e Sierva: Quando eu cheguei aqui nessa cidade,

Eu avistei a torre da igreja,

Mas que beleza,

Cheguei agora, Nossa Senhora, seja nossa guia!

Caridad: Já estamos quase lá, minha criança. Dequi a pouco nóis volta. Guizos, uma fieira de guizo, nhá Maria. Que é de? (olhando em seguida para Sierva) Cascavé, cascavé pro bailongo, é pra festa. (rindo da indiferença de Sierva) Bota uma cara de novidade ´baixo desses cabelo, minha filha. Hum, deixe estar... hoje é o dia do seu aniversário, não é?

Conspirador 1: Não sabe governar sua própria cozinha!

Conspirador 2: A carga está infestada. Ora, dizeis! São maldades do vulgo?

Conspirador 1: Já nos quer governar cabana e vinha.

Conspirador 2: Mal de raiva, canícula! Esta cidade é mesmo regida pela peste.

(Entra o Governador)

 (Entra Traficante de Escravos com uma escrava amarrada, coberta por um pano)

Vendedor de Escravos: Ô mô senhor governador!

Conspirador 1: Arre!

Conspirador 2: Arre!

Vendedor de Escravos: Ô mô senhor governador! Acreditai mesmo nas maldades desse povo ignaro e plebeu?! Já não estou eu há muito tempo no trato da guiné? Não devia esse povo todo agradecer? Quem é que traz pra essa opípara cidade os braços mais fortes da Africa? As doces mucamas... destras! Pra lavar, pra passar, pra engomar, pra cozinhar... Pro senhor, mô senhor governador! Ê! Achai mesmo, cidade, que eu ia trazer pro sossego dos vossos mercados uma carne apodrecida? Que eu ia jogar na vastidão do oceano minha carga preciosa de 400 pretos pestilentos? Acha?! Que dizei então, cidade ingrata, dessa suntuosa peça?!

Vendedor de Lundus: Eu hei de te amar até morrer! (inicia-se o samba, a feira aos poucos começa a formar uma roda)

Governador: É minha agora. Levarei a peça!

(A roda que corre e late encobre Sierva Maria. Grito de Sierva. Todos Saem de cena menos a menina e Caridad.)

 

CENA 5: Festa

(Caridad encontra a menina e começa a cantar “Yao ê, Ererê ai ogum bê.”.Outra escrava entra em cena e ajuda a limpar a ferida e banhar a menina. Fora de cena ocorre o diálogo)

Escravo de Fora 1: É festa de branco ou não é, Praxedes?

Escravo de Fora 2: A menina é branca de defeito, nasceu errada debaixo duma cama do sobrado. Diz que é enjeitada.

Escravo de Fora 1: É dia de festa dos outro, Praxedes. A gente não é nem escravo do siô marquês. E se os cachorro pega nóis de raiva?

Escravo de Fora 2: Aí danou-se...

Escravo de Fora 1: ... e nóis se acaba! Nóis saiu fugido, malungo.

Escravo de Fora 2: É dia de Santo Ambrósio, siá família de nhonhô tá é na missa. E vassuncê tem medo de um aniversariozinho de doze ano, é? Seje home, Romão.

(Aos poucos os escravos vão ocupando a cena trazendo colares para a menina e cantando)

Com licença do Curiandamba,
Com licença do Curiacuca,
Com licença do Sinhô Moço,
Com licença do Dono de Terra

Escrava 1: É hoje! Funanga, bate-baú! Comó sanzala tendaiô, camunjerê aê, ô!

Músico 1: É hoje o dia de Santa Bárbara!

(Inicia-se a música “La Piragua”, todos cantam e dançam. Enquanto a dança acontece, uma velha escrava circunda a roda dizendo:  Hum, quem é que vai varrer a sanzala adespois? Quem é que vai arrumar tudo, ê? Bailongo dos demonho. Vosmecê é tudo jove. Dia de frete é dia de mucho lambaio. Fim da canção.)

Escrava 1: Quem qué bebe?

Escravo Adolescente: Calma Vó Florênça, hoje é aniversário de Sierva Maria. Ela é uma de nois, veve mais nois! Vosmece mesmo não ajudou a criar ela?

Velha Escrava: Meus peito já secaro faz tempo, menino. Já to que não me aguento mais. Cansei de lambá. Dia de frete na sanzala é dia de consumição, essezinho, ê lambaio

Caridad: Doze ano. Doze ano tá fazendo a menina, cumadi! Óia, que passou tanto tempo que eu to ate seca de velha, vê?

Escrava 2: Faz tempo comadre. A menina tinha acabado de nascer. Foi a véia Dominga, ela ta agorinha é na Aruanda, veve em paz nos prazo de Nzambi, apois foi a véia Dominga que trouxa ela pá nois. Num foi, Caridad?

Caridad: Odoya. Saravá olocum nas ondas do mar! Viva meu povo de ngoma! Viva yemanjá!

Todos: Odoya!

Escrava 2: Foi a véia Dominga que tirou a menina do ventre podre da sinhá marquesa Bernarda Cabrera, num foi?

Escrava 3: É filha de nhamanja mesmo, valente. Só abriu os olho aqui na senzala. Nasceu la dentro foi por engano

Velha escrava: Chegou aqui pareceno um girino assustado, uma assombração. Nóis ensinou de um tudo pra ela.

Escrava 2: Deixa a véia em paz, sô

Caridad: Arre! Que essa festa tá muito da desanimada, meu povo! Chora gungaê!

(Inicia-se a música: “Grande anganga muquiche”, todos dançam e cantam)

Caridad: Viva Sierva Maria!

Todos: Viva!

Sierva Maria: É Maria Manginga!

Todos: Viva!

(Escravos saem de cena. Escravas se reúnem ao redor de Sierva Maria, em um quadrante do espaço cênico, pode-se ouvi-las dizendo: “Hoje é dia de Santa Bárbara” “Dia de Iansã”, “Maria Mandinga...” Aos poucos, todas vão dormir.)

Marquês: Mas que barulheira é essa?! Até os cães perderam a medida... Parecem uns pobres coitados acometidos pela raiva!

Bernarda: Cães furiosos, rojões, gritaria, cucumbes de pretos.  De onde vêm esse desfrute todo? Já não basta essa dor de cabeça que me atormenta diariamente. Antes Judas estivesse aqui.

Marquês: Daqui a pouco as paredes vão cair assustadas! Pra que latir desse jeito?

Bernarda: É sete de dezembro, dia de Santo Ambrósio. É Aniversário da menina, imbecil.

Marquês: Quantos anos ela faz?

Bernarda: Acabou de fazer doze...

Marquês: Só doze?! Que vida mais lenta!

 

CENA 6: Sagunta

(Duas Bernardas entram no recinto da senzala, onde as escravas dormem, para procurar a ferida da mordida em Sierva Maria. Uma delas está se abanando com um leque, esta é a primeira a encontrar Sierva dormindo e examina-la. A outra se detem mais próxima da coxia, olhando com desprezo as escravas que dormem; ela carrega um lampião e só vai até Sierva Maria depois que a Bernarda com o leque começa a sair para a coxia. No momento em que as Saguntas revelam ao marques que a menina foi mordida, ela ilumina a ferida com o lampião.)

Sagunta 1 e 2: (entra falando sozinha, olha aca casa e bate o cajado para chamar Marquês) Siô Marquês. Ô, Siô Marquês!

Marquês: Quem é?

Sagunta 1: É eu, Sagunta.

Sagunta 2: Sagunta é minha graça, Sio Marquês, Siô Inácio. Conheco as malazarte dos cabolo tudo, abo de índio brabo. Sagunta não esera o tempo desacontecer, se for preciso, corto o destino antes da hora...

Marquês: Aparecer assim numa hora tão imprópria...

Sagunta 1: Sagunta é minha graça, siô marquês. Siô Inácio. Sagunta sabe das coisa tudo. Ponto e vírgula. Sagunta corta o destino antes da hora, não espera o tempo desacontecer. Em março vai acontecê um eclispe. Um eclispe total completo. As trevas vai cubri tudo a face da Terra. Oia lá os bicho homi tudo espavorido, acendendo uma vela atrás da outra. Noite absurda, noite canícula, noite braba....

Marquês: Chega de nhem nhem nhem! Missa inteira nunca ouvi! Guardai o vosso latim com a senhora e diga-me logo o que a senhora veio fazer aqui!

Sagunta 1: Nós tá ameaçado por uma peste danada. É mal de raiva sim siô. Agora só eu tenho as receita, a cura de São Sebastião, patrono dos caçador, a única esperança dos ademoniado. 

Marquês: Não vejo motivo algum para os teus anúncios de peste. Nada de alarma, nada de eclipses que saiba, nada de nada! E também nem acho que somos culpados o suficiente pra Deus, Nosso Senhor, querer se ocupar de nós.

Sagunta 1: No primeiro domingo de dezembro, alí, bem no meio da feira. As pessoa foro mordida. Dois desaparecero, foro é ser tratado na base de feitiço. O outro morreu de raiva na terceira semana

Sagunta 2: Havia ainda um quarto, esse não chegou nem a ser mordido. Só a baba do cachorro desgraçado foi ineficiente. Tá lá amarrado no amor de deus, agonizante.

Sagunta 1:Era tudo escravo esses desgraçados. 

Marquês: Ah, mas não é possível! Será isto um sonho ou um delírio absurdo?! Ficar ouvindo essas curiosidades inúteis sobre pretos e animais! O que eu tenho a ver com isso, minha senhora?!

Sagunta 1 e 2: Ah! Vassuncê tem uma filha de 12 anos não tem? Apois. Ela foi a primeira a ser mordida. 

Marquês: Pois se fosse assim, eu seria o primeiro a saber e saberia muito antes da senhora! Passar bem.

Sagunta 1: Sagunta só veio avisar. Não quer ouvir, então espera pra ver. 

Sagunta 2: Escuta, Siô, eu só vim trazer informação, mas se o siô não quiser me escutar. Espera pra ver.

(Caridad acorda Sierva María e as escravas, depois traz uma bacia, onde Sierva entra. Então, as escravas começam a despir a menina e iniciam um ritual de cura cantando “Saraiêiê bakunan”, ao longo do ritual, as próprias escravas se despem, tornando-se Siervas. Saguntas saem. Entra Bernarda)

Marquês: É verdade mulher? Ela foi mordida? A menina? Então por que é que ela não haveria de dizer logo toda a verdade?

Bernarda: Não falaste com a menina, senhor meu marido? Ela falseia em tudo, é traiçoeira feito uma preta boçal, mente mais que um frade. Não há jeito de fazê-la dizer nenhuma verdade.

Marquês: E a nossa honra de família Bernarda?! Vamos! Depressa! Precisamos fazer alguma coisa. Ouvi dizer que o cão estava atacado. Talvez trouxesse a raiva dentro de si.

Bernarda: Te acalme, senhor meu marido. TE ACALME, MEU QUERIDO INÁCIO. O acontecido contrário é muito mais provável. O chachorro, coitado, deve ter morrido uma hora depois de provar daquele calcanharzinho. Foi em dezembro do ano passado, não foi? Ja estamos em março e a descarada não contraiu um resfriadinho sequer até agora. Esta como uma flor de menina. Apesar de tudo ela ainda é minha filha, pode morrer de qualquer outra coisa. Agora, doença de cachorro, meu querido marido, não! Será que ela herdou de ti a irracionalidade dos cães? Eu sempre enxerguei dois palmos adiante da rua pachorra, Marquês. Eu vou pro trapiche cuidar dos meus negócios. Hoje recebo mais uma junta da Guiné.

(Bernarda sai de cena. Entram outras duas Bernardas. As escravas, agora transfiguradas em Siervas, param de cantar e começam a observar as Bernardas. Em um segundo plano, atrás das cortinas, a Bernarda que acabara de sair de cena encontra-se com um escavo, Judas Iscariotes)

Bernarda: Qual o nome do teu dono?

Judas: Eu não tenho dono, Senhora.

Bernarda: É marquesa. Marquesa Bernarda Cabrera. Qual o seu preço pra toda vida, nego?

Judas: Sou Judas Escariotes, nêgo livre.

Bernarda: Qual o seu preço, nego?

Judas: Pra senhora, meu peso em ouro.

Bernarda: Vê lá se isso é preço de gente. Nem de branco, muito menos de preto.

(Siervas levantam-se e caminham, silenciosas, em direção as Bernardas, dando pequenos sustos nelas)

Bernardas: Maria Mandinga!

 

CENA 7: Abrenuncio e memórias do Marquês

Marquês: Vamos. Vista-se! O médico está lá embaixo.

Bernarda 1: Em nome de Jesus!

Marquês: Eu não trouxe este médico aqui para cuidar dos teus achaques, mulher! Das tuas misérias! Poderia tê-lo trazido só pra isso, é verdade, mas este médico está aqui para cuidar das doenças da tua filha!

Bernarda 2: Então mande-o voltar e bater o portão outra vez. Um médico para aquele fantasma? A menina está morta há doze anos e quatro meses. Qual é o nome do tal doutorzinho?

Marquês: É Abrenuncio.

Bernarda 2: Maravilha! Aquele judeu marrano que catava os restos do almoço de meus pais? O infeliz que divulga as feridas alheias para aumentar sua fama de adivinho? Ó, altos diagnósticos! Vil estrangeiro... quereis humilhar o nome dos teus antepassados, senhor meu marido?

Marquês: Embora tu não queiras este médico, e eu o queira menos ainda, embora agora tu vivas entregue àquele trapiche infestado de pretos e de muambas, entregue ao fogo insaciável das tuas entranhas, é de tua filha que estamos falando! E é por causa deste laço sagrado que eu lhe peço que, por favor, assista aos exames!

Bernarda 2: Por mim..Podem fazer o que quiserem. 

Bernarda 1: Esta casa é um erro. Vá até o trapiche depois, Inácio, para ver se eu não morri também.

(Entra Abrenuncio. Durante a fala de Abrenuncio as duas se debruçam sobre as bandejas e começam a se lambuzar com chocolate. No final da fala, antes que as loucas entrem, as duas começam a se transformar em Bernardas jovens.)

Marquês: E então, doutor?

Abrenuncio: Tu ne quaesieris! A criança sabia de tudo. Mordida por um cão raivoso ela foi.

Marquês: A menina, talvez lhe tenha dito por infantilidade um emaranhado de mentiras! Esta ciência toda do senhor, porém, não me parece muito...

Abrenuncio: (interrompendo) Não veio dela, senhor marquês, a notícia de uma ciência tão pura, tão ingênua. A menina é um animalzinho livre. É ladina por natureza. Ela é mais esperta do que imaginas e, no entanto, não conhece nada da vida. (pausa) Scire nefas... Foram as batidas do seu coração – quem mihi, quem tibi? Parecia, o músculo cardíaco, uma rãzinha trêmula, enjaulada. Foi ele que, por fim, revelou-me toda a verdade. É muito cedo, ainda, para confirmar o contágio. Se invadiu a raiva, ou não, o corpo indefeso de Sierva Maria não me é possível dizer. Nec Babylonios temptaris numeros. Se a menina estiver infectada, meu caro fidalgo, será necessário interná-la no Hospital do Amor de Deus. A não ser que o senhor mesmo queira assumir a condenação de manter uma moça tão jovem amarrada numa cama. Gemendo amedrontada, partida ao meio entre delírios e convulsões pavorosas, até que a misericórdia dos astros decida arrebata-la deste sombrio vale de lágrimas.

Marquês: Não há cruz, doutor, por mais pesada que ela seja que eu não esteja disposto a carregar!

Abrenuncio: Eu não poderia, senhor Marquês, esperar grandeza menor de tua parte. A única coisa que eu não consegui entender é aquele cheiro aziago de cebola que do suor dela provinha, mas como isto não é sintoma de tão maligna doença, pode ficar tranquilo. O mais provável é que a tua criança não tenha contraído do canídeo a loucura mortal.

Marquês: E enquanto isso?

Abrenuncio: Encham a casa de flores, toquem música, façam cantar os passarinhos, levem-na para ver o pôr-do-sol, para ouvir, à noite, o giro do céu estrelado e as histórias trazidas pelo sopro do vento. Deem-lhe tudo o que possa fazê-la feliz. Carpe diem quam minimum credula postero. Desta vez eu o traduzirei (Pausa): Não há remédio que cure o que a felicidade não cura.

(Abrenuncio sai. A cena é invadida por um coro de loucas que circundam o marques cantarolando uma canção. Cada louca repassa a flor que carrega em mãos até que um buquê seja formado e a ultima louca da fila “brinque de casar com o marques”. Ao jogar o buque para trás, Bernarda, que permanecia em cena, pega o buque e expulsa as loucas indo em direção ao marques, finge com ele casar também e sai. A outra Bernarda então segura a mão do marques e começa a ler)

Bernarda: Corre o Giro da fortuna e muda o curso das estrelas.

Marquês: E tu, quem es?

Bernarda:  Bernarda Cabrera, negociante: negros da guiné, arenques e azeitonas. Gosta de azeitonas...? Pretas ou verdes...?

 

CENA 8: Curandeiros

(Bernarda e Marquês começam a dançar. Entra Sierva Maria em um dos quadrantes, os gemidos de dor da menina se confundem com os de prazer da mãe. Quando a luz se acende, Sierva está no chão, agonizante)

Marquês: Chamem todos os curandeiros da cidade! Chamem aqula índia, Sagunta, que me importunou dia desses em casa! Vamos, depressa moleque! Caridad, Benedito, Nazaré, João, Praxedes! Vamos, depressa moleque!

(Nesta cena entram curandeiros, escravas e as Saguntas. Saguntas buscam Sierva Maria e a trazem para o centro da cena, onde os curandeiros estão em roda. A partir daí uma sequência de ações ritmadas acontece. Uma Sagunta despe a menina para que a outra inicie a cura, deitando sobre a menina e se esfregando contra ela. Ao fundo ouve-se passos ritmados e vozes masculinas “Opanijé atoto” e femininas “Obaluaê atoto”, quando Sagunta inicia a cura, ouvem-se gritos femininos. Entra Marques e Bernarda, em quadrantes opostos)

Marquês: Já Basta!

Sagunta: Eu não acabei ainda!

Bernarda: Arretira-te, bruaca velha!

Sagunta: Foi seu marido que mandou me chamar. Pra tirar a raiva do corpo da menina.

Marquês: Esses feitiços não prestam pra nada!

Bernarda: Pouca vergonha! Vai-te, negra imunda!

Sagunta: É a cura de São Sebastião.

Bernarda: E tu, menina dos infernos, quereis arrastar a honra de tua família para o covil dos heréticos? Para os quilombos, os calundus, os candomblés? Vai-te embora, monstro! Some daqui! Vai! (Sai de cena)

 

CENA 9: BISPO

(Entram Bispo e Delaura. Enquanto o Marquês e o Bispo dialogam, Sierva Maria e Delaura se observam)

Bispo: Fizemos-te vir até aqui, prezado Marquês, porque sabemos que precisas do amparo da igreja; do amor de deus. Vamos, meu filho, ajude-nos a livrar-te do mal!

Marquês: Vossa reverendíssima talvez saiba que carrego comigo a tristeza de um mal secreto. Reverendo, qual a maior desgraça que um ser humano é capaz de suportar? Há muito perdi minha fé! Já não posso viver comigo e nem fugir de mim!

Bispo: Já sabemos de tudo, Inácio. A igreja não é um lugar de incertezas, nem de hesitações privadas, meu filho. Vosmecê irá encontrar tua fé perdida de um jeito, ou de outro.

Marquês: Fiz de tudo para ocultar minha desgraça! Mas sofrer em silêncio é privilégio da nobreza!

Bispo: Falhastes, Marques, em tuas pretensões de nobreza! Afinal teus erros são públicos e a impureza no teu sangue é notória. A cidade inteira dorme dizendo que tua filha rola pelo chão, vitimada por convulsões obscenas, e acorda ladrando, junto com a menina, em estranhos dialetos idolatras. Não seriam esses, Inácio, sintomas inequívocos de uma possessão demoníaca?

Marquês: O que quer dizer?

Bispo: Que dizes, meu caro Marques?! Que dentre as inúmeras espertezas do demônio uma das mais frequentes é travestir-se. É insinuar-se mais afável que um animalzinho doméstico; é invadir, em seguida, o corpo de uma inocente criatura, governando-o sobre a aparência de uma doença terrível. Expulsá-lo é quase impossível: não há remédio, nem purga, nem sangria, nem antídoto que o faça sair às cegas do seu esconderijo.

Marquês: E o que devo fazer agora?

Bispo: Leve a menina ao convento de Santa Clara. Um padre de nossa confiança irá cuidar da saúda dela. Deixe-a em nossas mãos, deus fará o resto.

(O Bispo sai de cena amparado por Delaura. O marquês, com uma mala em mãos se aproxima de Sierva Maria, que permanecera sentada no centro da cena. Durante essa aproximação, coro fora de cena recita um poema. O marquês veste a menina com uma roupa de marquesinha e um chapéu)

Coro: Metade Maria,
Metade Mandinga.

Metade Nossa Senhora,

Metade Iemanjá

Metade Maria,

Metade Cachara.

Por ser assim, tão dividida.

A sereia é bonita.

A sereia seria ser e não ser.

Marquês: Acreditas em Deus?

(A menina encara o pai. Coro fora de cena começa a cantarolar “Kyrie” em bocca chusa. Pai e menina caminham para o quadrante onde se encontra a Abadessa do convento Santa Clara)

Abadessa: Seja muito bem vindo ao Convento de Santa Clara. Eu sou Josefa Miranda, abadessa responsável pela ordem e a paz dessa Santa Casa. Devo informá-lo que aqui ela não usará chapéu. (Marquês tira o chapéu da cabeça de Sierva) E o cabelo deverá ser cortado e enterrado dentro de poucos dias. (A menina se assusta)

Marquês: Não! Por favor não corte esses cabelos, é promessa para Nossa Senhora. Só deve ser cortado depois do casamento. (Entrega a mala)

Abadessa: Fique vosmecê com os pertences da menina. Aqui ela terá tudo o que precisa. 

 

(O Marques beija a menina e se vai, as freiras que estava nas beiras dos quadrantes se aproximam e circundam Sierva Maria, levando-a para fora de cena.)

 

CENA 10: Convento

(Duas Freiras permanecem em cena fofocando. Do quadrante oposto ao que saiu o coro de freiras entra uma nova Sierva, observando)

Angélica: Cecília, eu tentei fazer a receita do bolinho de chuva mas não deu certo!

Cecília: Vou te passar a receita outra vez! São dois ovos

Angélica: Sim, dois ovos

Cecília: Duas xícaras de farinha

Angélica: Sim, duas xícaras de farinha

Cecília: Uma pitadinha de baunilha.

Angélica: Ah, a pitadinha de bauni...

(Angélica vê Sierva Maria, logo depois Cecília também a vê. Ela está imóvel, fitando as freiras.)

Cecília: Qual é o teu nome, princesinha?

Angélica: Ela fala espanhol?

Cecília: Deve ser surda-muda!

Angélica: Ou alemã.

Cecília: Jesus amado! Olha o tamanho desse cabelo! Tem quase sete palmos, Angélica, deve sair varrendo o chão!

Angélica: Virgem Maria, tem uns olhos... 

Cecília: Parece coisa do Cão.

(Angélica tenta tirar os colares do pescoço de Sierva Maria, que a morde. As duas freiras saem assustadas. Enquanto a menina se limpa, um coro de escravos homens se aproxima)

Escravo 1: Obaluaiê?

Sierva: Adupé.

Escravo 1: Fala Mandinga?

Escravo-Pai: A mocinha bonita chegou hoje de manhã no convento, não foi?! E a senhorita ta aí sozinha desde de manhã? E essa cabeleira bonita, aí... Olé! Essa cabeleira bonita, você não corta desde quando?

Sierva: Desde que eu nasci.

Escravo-Pai: E esse calcanhar todo arreganhado, que que você fez?!

Sierva: Foi minha mãe que fez com uma faca.

Escravo-Pai: To sabendo! Sua mae fez com uma faca desse tamanho, num foi?! Esse colar que você tem aí no pescoço, ói, isso é uma guia pra Iemanjá. Uma mocinha assim sabe cantar pra Iemanjá?

(A menina começa a cantar e dançar para Iemanjá)

Sierva: Chegou, chegou a dona Janaina,

Nesse terreiro veio a dona Iemanjá.

Escravo-Pai: Olha só, Praxedes, não é que ela sabe mesmo?!

(Escravos começam a cantar com a menina, enquanto as freiras entram cantarolando também, encantadas com a voz da menina, cada qual comenta também sobre a pureza da voz da jovem)

Sierva e escravos: Chegou, chegou a dona Janaina,

Nesse terreiro veio a dona Iemanjá.

Abençoai os filhos de ioruba,

Oh compaixão, Nossa mãe Iemanjá.

Nossa senhora, veleira do mar,

Que tome conta desse nosso cazuá.

Abadessa: É o cântico dos anjos!

(A Abadessa então percebe que a voz vem da menina e interrompe o transe)

Abadessa: Cala-te, besta dos infernos!

Cecília: Foi ela, Abadessa!

Angélica: Ela me mordeu!

Cecília: E ficou invisível!

Angélica: A manhã inteira!

Cecília: Para nos confundir...

Angélica: Para nos confundir....

(Abadessa se aproxima da menina sucessivas vezes e a jovem contra-ataca)

Abadessa: Ave Maria Puríssima!

Freiras: Concebida sem pecado!

Abadessa: (aos escravos). Levem-na já para a cela, agora, imediatamente, agora!

(Os escravos mais jovens saem correndo atrás de Sierva, para fora de cena)

Abadessa: (aos que ficaram). Já para a cozinha!

(Os escravos saem, as freiras retomam suas posições e saem cantando “Kyrie”)

CENA 11: Sonho de Delaura

(Entram em cena: Delaura, cantando “Kyrie” e três Siervas que caminham lentamente em direções opostas encarando um ponto fixo. Ao chegarem sentam-se e comem uvas observando uma janela)

Bispo: Estás tão alheio meu filho. Para onde foi a dedicação do jovem seminarista? Em que pensas?

Delaura: Perdoe-me vossa reverendíssima, mas ontem a noite sonhei de uma forma e a muito não havia sonhado. Sonhei com a Filha do Marquês.

Bispo: Então é só isso? És tão capaz, Cayetano. Tens a imaginação tão fértil que enxergas à noite sereias... cavaleiros. Coisas que teus olhos nunca viram.

Delaura: Eu não posso estar enganado Dom Toríbio. Tenho certeza que era ela. Só não consigo entender o significado daquilo que tanto me perturba.

Bispo: Conte-me então do teu pesadelo horrível.

Delaura: Sonhei com uma linda marquesinha crioula.... Ela tinha uma longa cabeleira vermelha, que se esparramava pelo chão feito um véu. Estava sentada diante de uma janela, para onde observava com atenção um campo vazio coberto de neve. Em seu colo eu vi um cacho de uvas maduras, do qual ela arrancava uma a uma. A cada fruto que a jovem arrancada, outro brotava no lugar imediatamente. Podia se perceber que a jovem estava ali a muito tempo. Porem ela não tinha pressa em comer as uvas, pois sabia que a morte viria lhe buscar quando o último fruto estivesse...

Bispo: Já basta, Cayetano! Terás tempo o suficiente para decifrar teus sonhos curiosos; cuidarás da menina. O Marques já está ciente das tuas incríveis habilidades.

(Entram dois outros Delauras em cena, fantasmagóricos. E a partir de agora as Siervas os observam, cada uma um, estabelecendo relação)

Delaura: Eu não posso meu pai! Eu não sou exorcista. Não tenho formação necessária. Porque não chamastes um exorcista conhecido? O celebre Padre Aquino, aquele padre moreno. É um vigário irrepreensível, já queimou 6 diabos em toledo, e agora dedica-se humildemente à salvação dos negros deste burgo. Além disso, bem sabes o senhor, que meu único objetivo sempre fora a Biblioteca do Vaticano

Bispo: Não duvides jamais da divina providencia, meu filho. Essa tarefa é justamente o que vosmecê precisa para alavancar a sua carreira. E padre Aquino?! Ele pode falar das palavras de cristo mas ainda não abandonou suas antigas crenças. Vamos Delaura! Mostre a tua competência agora e as portas do vaticano vão estar naturalmente abertas para vosmecê.

Delaura: Não Dom Toríbio, não sou capaz.

Bispo: Não só és capaz, homem de deus, como também estás cheio de uma virtude que ninguém mais tem: inspiração. Vá ver a menina... e me mantenha informado do caso

(O Bispo sai de cena e as Siervas se empoderam dos Delauras)

Delaura: Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, criador do céu e da terra. E em Jesus Cristo, seu único Filho Nosso Senhor, que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria , padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu a mansão dos mortos, ressucitou ao terceiro dia, subiu aos Céus, está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso, donde há de vir a julgar os vivos e mortos. Creio no Espírito Santo. Na Santa Igreja Católica, na comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne, na vida eterna. Amém

(Os outros dois casais saem de cena ao longo da reza, por último Sierva retira o último Delaura de cena)

 

CENA 12: Primeiro encontro de Sierva e Delaura

(No quadrante oposto ao que se encontra Sierva, um coro de freirinhas está a rezar)

Delaura: Não afirmamos que a menina esteja possuída. Apenas que há motivos para supô-lo.

Abadessa: O que estamos vendo fala por si.

Delaura: Às vezes atribuímos ao demônio coisas que não entendemos, sem cuidar que podem ser coisas de Deus.

Abadessa: Assim disse São Tomás, e é a ele que me atenho. Mas não se deve acreditar no demônio nem mesmo quando ele fala a verdade. 

Delaura: Tanto assim?

Abadessa: (em direção a Martina). Cuidado, essa é Martina. Uma criatura capaz de tudo. 

Delaura: Mesmo que ela não estivesse possuída por nenhum demônio, essa criança teria aqui o ambiente propício para uma possessão demoníaca.

Abadessa: Honra que não merecemos. Fizemos o possível para manter a cela em bom estado, mas essa menina que o seu bispo mandou pra nós gera a própria imundice. (Delaura entra na cela). O caso é todo seu padre. 

 

(Entra Marques e Abrenuncio em cena. As freiras param de rezar)

 

Marquês: Entreguei a menina ao convento de Santa Clara. Vai ser exorcizada.

Abrenuncio: Conte-me tudo.

Marquês: Fui visitar o bispo, estou convencido de que esta é a vontade de Deus.

Abrenuncio: Quer dizer que recuperastes a fé?

Marquês: Nunca se deixa de crer por completo. A dúvida persiste.

Abrenuncio: Antes continuasse com a feitiçaria dos negros, o Sato Ofício é muito pior. Os negros não vão além de sacrificar os galos, ao passo que o Santo Ofício se compraz em esquartejar inocentes no potro ou assá-los vivos num espetáculo público. Matá-la seria mais cristão que enterrá-la viva. Tire-a de lá.

Marquês: É o que eu quero, mas não me sinto com forças de contrariar a vontade de Deus.

Abrenuncio: Pois sinta-se. Talvez Deus lhe agradecer-lhe-á um dia.

(Os dois saem de cena. No momento em que Sierva Maria morde Delaura. As freiras voltam a cantar o “Kyrie” a partir da segunda parte. Delaura joga uma maça para a jovem e parte.)

 

CENA 13: Eclipse

(Martina sai de seu quadrante e entra no de Sierva.  As freiras se levantam e começam a fofocar sobre a menina endemoninhada)

Martina: Tu mordeu o padre, menina? Cuidado..Assim ele apaixona! Cabeleira bonita, posso trançar?

(No coro de freiras desponta uma que conta a seguinte história)

Freira 1: Tava tudo as galinha assim, né? E...de repente!

Sierva: Tenho o diabo dentro.

Freiras: Oh!!

 

Freira 2: Pois escute irmã o que eu vi: Estavam todos os cabritinhos reunidos: bé, bé, bé, quando de repente (pula em cima de uma freira). Ela esquartejou o bichinho, com as próprias mãos... 

(Sierva e Martina saem de cena. Entram Delaura, Abadessa e o Bispo. As freiras continuam rondando o espaço e fofocando até se encontrarem com a Abadessa e começarem a rezar)

Abadessa: Caro senhor Bispo, vossa excelência reverendíssima. Venho por meio dessa missiva pedir que poupe-nos a tutela de Sierva Maria. Esse castigo já deve ter servido para testas as minhas pobres irmãs clarissas. Atrelada a essa carta está uma ata contendo uma série de acontecimentos que demonstram apenas que há um contubérnio desenfreado entre satanás e a mencionada jovem. Além disso mandastes a essa santa casa um diácono prepotente, pedante e desordeiro, que ousa infringirmos as regras básicas, trazendo às minhas reclusão pensamentos liberais. Não será mais aceita nenhuma quebra de regulamento por parte deste diácono! Eu, abadessa Josefa Miranda, exigi que o senhor reconsidere a sua decisão e retire imediatamente a endemoninhada menina crioula daqui.

(As freiras começam a comentar acerca da carta enquanto Delaura começa sua fala, coro de hoens ecoa essa primeira fala do padre. A abadessa silencia as freiras e a fala do Padre se repete mais uma vez)

Delaura (em coro): Quem está possuído por todos os demônios é Josefa Miranda. Demônios de rancor, de intolerância de imbecilidade. É detestável!

Delaura: O que eu quero dizer é que ela atribui tantos poderes as forças do mal que mais parece devota do demônio!

Bispo: Minha investidura não permite estar de acordo contigo, Delaura, embora eu quisesse estar. E de qualquer jeito, o evangelho está cheio de mulheres com defeitos ainda piores que os de Josefa Miranda e, mesmo assim, jesus as perdoou. Ah, meu filho.... Como estamos longe.

As freiras se levantam de onde estavam e começam a circular o espaço, o eclipse começa vagarosamente)

Delaura: De quê?

Bispo: De nós mesmos. Me assusta só de pensar que na Espanha já estejam dormindo.

Delaura: Não podemos alterar o curso da terra.

Bispo: Mas podíamos ignorá-la, pra que não nos doa. Mais do que fé, o que faltava a Galileu era coração.

(Sierva e Martina se encontram sentadas observando o céu)

Martina: Quero saber quem eles são, como são.

Sierva: Que dizes?

Martina: Nada...minha esperança é em ti, criança, e em teus demônios. Quero saber quem eles são, como são. Quero negociar com eles.

Sierva: Tenho seis: Asmodeo, Carreau, Maria Padilha, Astaroth, Sonneillon e Exu Tranca Rua. Martina: Esse eu conheço! Quero falar com ele, dou minha alma em troca.

Sierva: Ele não fala. Basta olhar dentro dos seus olhos de cão para saber tudo o que ele quer dizer.

(O eclipse se finda)

Bispo: Continuas pensando na menina.

Delaura: Penso que o vulgo pode relacionar seus males a esse eclipse.

Bispo: E quem sabe o vulgo não esteja certo? As cartas do baralho de deus são dificílimas de ler.

Delaura: Esse fenômeno foi calculado há milênios pelos astrônomos assírios.

Bispo: Essa é uma resposta de jesuíta!

Delaura: Continuo vendo o eclipse. A onde quer que eu olhe, lá está ele.

Bispo: Vai passar, meu filho. Vai passar!

Delaura: Com todo perdão, meu pai... mas eu não acredito que essa menina esteja possessa.

(Ambos asem de cena)

 

CENA 14: Segundo encontro Sierva e Delaura

Delaura: O eclipse te assustou minha criança? Tivestes medo?

Sierva: Não. Não achei nada demais. O convento inteiro parou e cinco minutos depois os galos voltaram a cantar. Vi tudo do terraço. O que aconteceu ontem acontece todas as noites, a única diferença é que eu não consigo ver o Sol daqui de dentro. Eu não quero morrer!

Delaura: Quem lhe disse isso?

Sierva: Martina

Delaura: Então fizestes uma amiga no pátio da clausura?

Sierva: Sim...Ela me dá aulas de bordado

Delaura: E Martina, ao menos, lhe disse qual a hora exata de tua morte?

Sierva: Depois do eclipse. Logo, logo eu vou morrer...

Delaura: Ora, então esta Martina é mais esperta do que eu pensava. Depois do eclipse pode ser nos próximos cem anos. Agora sou eu, minha cara, que vou lhe dizer o futuro que Deus colocou em teu caminho. Numa tarde, depois da tarde de ontem, é óbvio, estarás velhinha, e morrerás tranquila, encoberta pelo manto da virgem.

Sierva: Eu não quero morrer, doutor!

(Delaura começa a rezar)

Sierva: Pare de rezar doutor! Ande, troque logo esse curativo, voltou a doer bastante!

Delaura: Eu não sou teu médico. Sou apenas um padre, menina. E estou aqui para tirar o demônio do teu corpo.

Sierva: Então porque te esforças em cuidar de mim?

Delaura – Para te ver feliz, curada e bem longe daqui. Porque gosto muito de ti.

(Sai. Vê Martina em sua cela.)

Delaura: Esta menina já tem problemas demais. Ela não precisa que vosmecê coloque mais coisa na cabeça dela.

Martina: Só perguntei sobre seu estado de saúde, e depois de três ou quatro respostas percebi que a menina mente por vício.

Delaura: Perdão. Eu me precipitei. Mas ainda assim, te peço que não faças nada que magoe a menina.

Martina: Eu sempre hei de saber bem o que faço.

Delaura: Eu te conheço, sei que sabes muito bem o que fazes.

 

CENA 15: Bernarda

(Nesta cena se encontram as três Bernardas e os dois Marqueses, o texto é o mesmo que em alguns momentos é enunciado por mais de um ator. Durante toda a cena, as loucas ficam em segundo plano, atrás dos véus, observando o Marques e sua ruína)

Bernarda 1: Para onde foram todos?

Bernarda 2: Escondeste bem tua marquesinha, ein? Chego a sentir falta dos pinotes daquela cabrita

Marquês: Há tempos a menina não está conosco!

Bernarda 1: Quer dizer então que Abrenuncio fez o que era preciso fazer.

Marquês: Deus nos livre! Abrenuncio examinou a menina e concluiu que ela não tinha doença alguma! E então, eu levei o caso ao bispo e ele me aconselhou que eu a internasse no convento de Santa Clara. E eu só não lhe disse nada, pois estava te tratando do jeito que tu mesmo me pediste: como se estivesses morta!

Bernarda 1 e 2: Quer dizer que agora nossa vergonha é púbica?

(Marquês de deita no colo de Bernarda 1 e começa a chorar.)

Bernarda 2: Eu sempre entendi tudo!

Bernarda 1: Eu sempre entendi, senhor Marquês, que tudo é incerto e derradeiro.

Bernarda 1 e 2 (em jogo de alternância): Vivi de tráfico e de contrabando, de bailes, de pestes. Eu sempre enxerguei dois palmos adiante da tua pachorra. E agora, Inácio? Corre o giro da fortuna e muda o curso das estrelas... Olho, todas as manhãs, para o meu cabelo murcho, caído, na água de uma bacia. E não vejo nunca, ali dentro, o meu rosto refletido. Eu sempre entendi tudo, menos a morte. Nós armamos tudo. Meu pai me mandou a sua casa com o pretexto dos arenques e das azeitonas. Nós te enganamos com o velho truque da leitura de mão, e te violamos quando tu te fazias de desentendido. Planejamos a manobra fria e certeira de conceber Sierva Maria só para agarra-lo por toda a vida. A única coisa a que me deve gratidão é por ter faltado coragem de completar o último ato combinado: misturar láudano na sopa para não precisar aguentar-te mais. Eu mesma pus a corda no meu próprio pescoço, mas não me arrependo. Seria demais esperar que, além de tudo, eu tivesse que amar essa pobre coitada nascida de sete meses, ou a ti, que foi a graça de minha desgraça. Mas, o ultimo degrau de minha ruina foi me apaixonar cegamente por um negro livre: Judas Iscariotes. Vendi muitos outros braços da Guiné. Passei em revista dentes, músculos, carapinhas, suor, força de trabalho... e em nenhum deles reencontrei judas. Procurei-o em outros, me deitei com todos escravos do trapiche até que o mel fermentado e o cacau acabaram com meus encantos. Fiquei inchada e feia.  Descobri que fugiam para se porem a salvo de minha voracidade insaciável. Aí eu pensei que era capaz de mata-los a golpe de facão. E não só eles, mas também a ti e a menina, e o velhaco do meu pai e todo aquele que tivesse cagado no meu caminho... Mas eu já não era mais ninguém para matar alguém

As três Bernardas saem. As loucas invadem a cena provocando o Marques. Todos saem.

CENA 16: Diálogo Cruzado

(Estam em cena dois Delauras, Abrenuncio e o Marques, os dialógos não seguem uma linha cronológica)

Delaura: Deus o guarde senhor Marquês, como tem passado?

Marquês: Assim... Assim... apodrecendo.

Delaura: Com licença senhor Abrenuncio. Sou padre Cayetano Delaura, bibliotecário de diocese.

Abrenuncio: Muito prazer.

Delaura: O senhor bispo muito atarefado e sofrendo de asma me manda aqui representando-o.

Marquês: Muito obrigado por ter vindo. E diga-me, Delaura, como está?

Delaura: Bem.

Abrenuncio: Em que batalha perdestes o olho?

Delaura: Foi um contratempo do eclipse.

Abrenuncio: A única coisa ruim de tua visão é que ela divisa sereias, cavaleiros, coisas que teus olhos nunca viram.

Delaura: Espírito Santo! Mas este livro só é encontrado na biblioteca de Petrarca!

Abrenuncio: Com uns 200 livros a mais.

Delaura: Quero informar-lhe que me foi confiada a saúde espiritual de sua filha. Jesus deu aos seus discípulos o poder de expulsar dos corpos os espíritos imundos e curar enfermidades e fraquezas. No entanto, é importante estabelecer se Sierva Maria está de fato possessa. Quero ajudá-la a ficar melhor... diga-me, como era a menina antes de ser internada?

Marquês: Não sei.

Delaura: Sabes que esse é um livro proibido?

Abrenuncio: Como os melhores romances deste século.

Delaura: Meu dever seria denunciá-lo ao Santo Ofício.

Abrenuncio: Terei dito uma heresia?

Delaura: O caso é que tem aqui um livro proibido e alheio e não denunciou.

Abrenuncio: Esse e muitos outros. Mas se fosse por isso, o senhor teria vindo a muito tempo e eu não lhe abriria a porta. Mas, me alegra que tenha vindo agora, é um prazer vê-lo aqui.

Marquês: Sinto que conheço menos quanto mais a conheço. Me atormenta todos os dias a culpa de a ter abandonado à própria sorte no pátio dos escravos. Talvez seja por isso seus longos meses em silêncio, suas explosões de raiva e a astúcia com que enganava a mãe. A maior dificuldade para conhecer a menina era porque ela de mentia por prazer.

Delaura: Como negros.

Marquês: Os negros mentem para nós, não entre eles.

Delaura: Foi o Marquês ansioso pela sorte de sua filha, que me sugeriu que viesse.

Abrenuncio: A raiva é um mal que assola a humanidade desde sua origem. Por conta da incapacidade milenar da ciência médica para impedi-la, sempre fora confundida com possessões demoníacas. Quanto a Sierva Maria, depois de tantas semanas não parece provável que ela tenha contraído este mal. O único perigo é que morra, como tantos outros, em consequência da crueldade dos exorcismos.

Marquês: Vosmece não sabe ficava bonita de chapéu.

Delaura: Vejo que gosta muito dela.

Marquês: Não imagina quanto. Eu daria a alma para vê-la.

Delaura: Nada será mais fácil se pudermos demonstrar que não está possuída.

Marquês: Não devemos poupar quaisquer sacrifício! Fale com Abrenuncio. Ele foi o único a considera-la sã.... É um bom médico

Delaura: Conheço as regras do Santo Ofício.

Marquês: Eu lhe imploro, pelo amor de Deus!

 Delaura: Suplico-lhe que não me faça sofrer mais.

Marquês: Ao menos, leve esta maleta. Assim saberá que penso nela.

Delaura: É o que também temo. Porém já procurei apoio de confrades, até mesmo de outras comunidades, e nenhum ousa se pronunciar contra às atas do convento. Acredito que nem os meus critérios, quantos os seus irão convencê-los. Seríamos eu e o senhor contra todos.

Abrenuncio: Por isso me surpreendeu que viesse. Não sou mais que uma peça cobiçada no território de caça do Santo Ofício.

Delaura: A verdade é que nem eu sei ao certo por que vim. Ao não ser que essa menina me tenha sido imposta pelo Espírito Santo para pôr à prova a minha fé.

Abrenuncio: Não se atormente à toa. Talvez tu só tenhas vindo porque precisavas falar dela.

(Durante a cena Sierva Maria se encontra em um dos quadrantes e no quadrante oposto um coro de Siervas observa Delaura.)

 

CENA 17: Enxurrada

(Assim que Delaura se aproxima do coro de Siervas elas se deitam agarrando-se aos pés do padre e cruzando a cena para chegarem até Sierva)

Delaura: Seu pai quer te ver.

Sierva: Mas eu não quero.

Delaura: Por que não?

Sierva: Porque eu não gosto dele. Eu não quero vê-lo, eu prefiro morrer.

(Delaura tenta tocar a menina)

 Sierva: Nãoo me toque. Já disse pra não me tocar doutor. (A menina cospe no padre e o ataca)

(Delaura começa a rezar, tentando exorcizar a menina)

Delaura – Creio em Deus, pai todo poderoso... pois Aqui está o centro do mal

A serpente rastejante

O ígneo inferno sem sossego

A gangrena que corroi a natureza de todas as coisas

Vá de retro, Satanás! Abandona este corpo, demônio!

(O coro sai de cena, ficam apenas três Siervas que começam a cantar “Duerme Negrito” Entram outros três Delauras que começam a se flagelar, o Delaura do centro, que estava com a mala da menina olha seus pertences. As meninas saem. Entra o bispo e vê Delaura se flagelando)

Delaura: É o demônio, meu pai. É o demônio! A minha é inocente, mas eu vi, no fundo dos olhos dela a escuridão de uma noite angustiante. Seu corpo tão pequeno de menina é habitado por todas as minhas dores, por todas as minhas culpas.

Bispo: Tuas comissões e privilégios eclesiásticos estão manchados por terra, meu filho! Teus votos serão anulados.

Delaura: Meu senhor Pai, eu sou a misericórdia e a ingratidão.

Bispo: Serás o cristão mais humilde da minha diocese. Os internos do hospital amor de deus hão de precisar da tua ciência, meu filho. A sua capacidade intelectual há de iluminar a podridão de todos os leprosos.

Delaura: A missa das cinco! Ao menos concedei-me rezar todo santo dia a missa das cinco.

Bispo: Concedido.

Delaura: Agradeço, meu pai.

(Bispo sai)

 

CENA 18: Leprosos

(Os três outros Delauras se transfiguram em leprosos, entram outros para formar o coro. Em um segundo plano, atrás dos véus, podemos ver as freirinhas fumando, jogando cartas, bebendo...)

Leproso 1: O importante é que a vida é boa.

Leproso 2: É nada! A minha hora já passou faz tempo e eu ainda tô aqui. Que Diabo!

Leproso 3: Que fastio de vida sonolenta!

Leproso 2: Hoje não deram almoço, né?

Leproso 3: Oh, seu padre...lave as minhas feridas primeiro

 Leproso 2: (com ironia) “Hospital do Amor de Deus”, é um belo nome este, não é?

 Leproso 1: Eu não tenho nem perna pra correr atrás desse amor todo!

Leproso 2: Lembro-me de quando eu ainda tinha força nos braço! Eu era coveiro no convento de Santa Clara.

Leproso 3: É mesmo? Vosmecê, então, conseguiu entrar lá?

 Leproso 2: Eu enterrava os podre do convento de Santa Clara do Desterro. Pois é... eu conheço cada tauba daquela clausura.

 Leproso 3: Hôme nenhum consegue entrar ali. Dizem até que é uma prisão mal-assombrada.

 Leproso 1: Não sei disso não... tinha é cada freirinha atrevida! Vosmecê me diga, então. Todos aqueles túneis ainda tão abertos?

Leproso 3: O túnel...

Leproso 2: (completando) ... devem tá caindo aos pedaço!

Leproso 3: Meu avô contrabandeava fumo-de-rolo e cachaça por eles. Até o Capitão da Guarda e o Bispo (pausa maliciosa)... até o outro Bispo, o antigo.... Enfim, todo mundo participava do velho esquema subterrâneo.

Leproso 1: Acho que esses túneis nunca mais foram usados, bagomestre, mas talvez tenham permanecido abertos

Delaura: Ainda existe o túnel que liga ao convento de Santa Clara?

Leproso 1: Sim, no subsolo do convento, dentro do pavilhão das enterradas vivas.

(Toque de recolher dos leprosos. Eles saem. As freiras atrás dos véus também saem. Entra Abrenuncio. Como ação subliminar, o Bispo começa a correr atrás de Sierva, isso ocorre detrás dos véus)

Delaura: Senhor Abrenuncio.

Abrenuncio: Como vão os teus olhos?

Delaura: Bem melhor. Agradeço pelo colírio.

Abrenuncio: Não tem o que agradecer. Por que não vem até minha casa?! Temos muito o que conversar, vosmecê e eu. Vos misse

Delaura: Não posso sair sem ordens.

Abrenuncio: Ora Delaura, se o senhor conhece as fraquezas destes reinos, há de saber que as leis não são cumpridas por mais que três dias.

Delaura: Gostaria de saber por         que o senhor é tão bom comigo.

Abrenuncio: Porque nós incrédulos precisamos dos padres. Meus pacientes nos confiam seus corpos, mas não suas almas, e nós vivemos como os diabos, tratando de disputa-las com Deus.

Delaura: Isso não combina com suas crenças.

Abrenuncio: Nem eu mesmo sei quais são elas.

Delaura: O Santo Ofício sabe!

Abrenuncio: Venha a minha casa e discutiremos isso com calma. Minha biblioteca está à sua disposição. Mas saiba, que nenhum deus pode ter feito um talento como o teu para ser desperdiçado esfregando morféticos.

(Sai Abrenuncio. A corrida continua. Com a saída de Delaura a corrida cessa.)

 

CENA 19: Terceiro Encontro de Sierva e Delaura.

(Nesta cena existem quatro Siervas Marias e três Delauras, de forma que uma Sierva estará sozinha, cada qual em um quadrante da sala, pequenos diálogos acontecem dentro de cada quadrante.)

Sierva 1: Que bicho te mordeu?

Delaura 4: Me deixa, menina. Estou rezando.

Sierva 2: Essa aqui é a guia de yemanja, yemanja é a minha mãe, eu sou filha da rainha do mar. Toma. É um presente. Não tira daí e não te esqueças de mim.

Sierva 3: E se eu te pedisse para comer uma barata cascuda agora, bem na minha frente?

Delaura 3: (come uma barata) E se eu quisesse levar embora tua cabeleira vermelha para enfeitar tudo que é sapo do meu jardim?

 Sierva 3: Só se o jardineiro se casasse comigo! (se virando bruscamente, com animação) E se eu quiser te degolar, meu carneirinho, pra fazer um feitiço, uma mandinga? O que é que tu me dirias?

Delaura 3: Não! Por que sei que tu és capaz! Minha doidinha, minha doidinha! De onde tirastes tanta valentia?

Sierva 4: Quantos anos tu tens?

Delaura 4: 36.

Sierva: És quase um velhinho. Com cabelo branco e rugas!

(Todos os casais saem de cena, ficando apenas a Sierva que estava sozinha. Um coro de meninas que estão fora de cena ecoa esta última fala de Sierva Maria. O bispo entra com a abadessa o iluminando. O coro de mulheres então entoa o poema “Metade Maria....”)

Bispo: Bispo: A presença do senhor, nós nos reunimos. Reinos da terra, cante a deus, cantar-vos. Ao senhor, atribuam a qualidade de deus. Esconjuro-vos de todo espírito maligno, de toda inserção do soldado infernal; de toda a legião, toda congregação e seita diabólica. Em nome e pelo poder de Nosso senhor jesus cristo. Para erradicar e extinguir da igreja de deus. Redimido pelo precioso das almas redimidas pelo sangue do cordeiro de deus. Já não se atreva, astúcia de serpente, a enganar o gênero humano; perseguir a igreja e atormentar os eleitos por deus, peneirando-os feito trigo!

(O coro para) O altíssimo deus ordena que vosmecê, àquele a quem, em sua grande insolência, ainda afirma ser: que saia imediatamente daqui. E reza que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade. Deus, nosso pai, ordena que vade retro satanás! Jamais ouvirei a podridão dos teus enganos malignos! Some daqui, dragão do diabo, pelo santo sinal da cruz!

(Assim que Sierva Maria começa a gritar, o coro feminino canta a segunda parte do “Kyrie”. O bispo sai. O coro volta a cantar em bocca chiusa “Kyrie”)

 

CENA 20: Padre Aquino

(Entra a Abadessa com o Padre Aquino. Durante toda a cena existe um coro que aleatoriamente proclama algumas das frases a seguir)

Coro: Morte. Morte pintada. Morte disfarçada e sorrateira. Morte tormentosa, morto valente. Morte infeliz, morte implacável. Morto duas vezes. Morte dos pecadores. Morte dos santos inocentes. Morte sem prazo e sem limite. Morte infernal. Morte sem antecedentes. Morte de moça virgem, sina de rapaz solteiro. Morte voraz. Morreu de parto! Morte trabalhosa. Morreu ajustiçado! Morreu são! Morte súbita, nascer morto. Estou para morrer. Morto de fome, morta de sede, morto de frio. Morreu doido! Morto está tudo que é vivo. Até a ponta dos espinhos. Morte do Padre Aquino, morte dos mártires. Morta de raiva. Morto de cansaço. Morte amordaçada, morreu sem destino! Morta de medo. Morte sem rosto, sem peruca nem dinheiro. Morte sem língua, sem origem, sem cor e sem cabelo.

Abadessa: Alivia-me muito padre que o senhor tenha vindo até o nosso humilde convento.

Aquino: Venho para livrar dos inúmeros quefazeres o estimado bispo desta diocese. Eu ficarei a cargo dos exorcismos da menina enquanto o bispo se recupera de seus imprevistos respiratórios.

Abadessa: Graças ao bom Deus. Seja muito bem vindo, Padre Tomás de Aquino. (Entrega os colares) Aqui está o que me pedistes.

Aquino: E a menina, onde está?

Abadessa: Essa noite foi preciso amarrá-la. Ela se encontra no pavilhão das enclausuradas.

Aquino: E quais são os inequívocos sinais de possessão demoníaca que...

(O coro para de cantar)

Abadessa: Estes detalhes não me dizem respeito padre. O bispo foi um irresponsável ao mandar para o nosso convento um caso tão difícil. Tudo o que eu quero é que a menina seja retirada daqui o quanto antes.

Aquino: Às ordens Abadessa Josefa. Esta é a cela?

Abadessa: Sim

Aquino: (entra na cela) Si dada ni?

Sierva: Aláfia ni, adupé.

Aquino: Há quanto tempo a mocinha está presa nesta cela tão mal iluminada?

Sierva: Não sei...

Aquino: Eu lhe trouxe de volta estes colares. Estas são as suas guias, não são? A sua guia de Exu...

Sierva: Laroiê exu!

Aquino: A de Xangô...

Sierva: Kao kabiecile!

Aquino: E esta é a tua guia de Iemanjá.

Sierva: Odoya minha mae!!

Aquino: Eu sou o Padre Aquino, criança. Omodê. Eu ficarei responsável pelos teus exorcismos a partir de hoje. E esse calcanhar todo arreganhado, que que você fez?

Sierva: Meu pai que fez com uma navalha.

Aquino: Escuta, criança. Os demônios que tens no corpo, os diabos da América, estes cantam e dançam, eles falam muitas línguas, eles não levam desaforo para casa e eles abrem e trancam todas as ruas. Agora, o cão, o Satanás, este sim, este é um demônio cheinho de coisa ruim! E será este que eu vou tirar do seu corpo. Eu voltarei amanhã. Até lá, a senhorita trate de ficar em paz com a graça de Deus e Nosso Senhor!

Sierva: E se e é nigan, padre aquino!

 (Aquino sai da cela e reencontra a Abadessa)

Abadessa: Não entendo como a menina pode ficar tão calma com o Senhor e comigo e age como se fosse um bicho.

Aquino: Eu não fiz absolutamente nada, Abadessa. Deus, Deus às vezes nos perturba.

(Padre Aquino sai de cena. Sierva Maria canta a música de Yemanjá. As outras Siervas que haviam saído, voltam para seus quadrantes.)

 

CENA 1: Segundo Exorcismo

(Entra o bispo)

Abadessa: E padre Aquino?

Bispo: Foi encontrado morto... (o coro da morte é interrompido. As meninas começam novamente a recitar o poema “Metade Maria...”) Quem cuida do exorcismo agora sou eu! (O Bispo caminha até a menina que está a cantar, ao chegar atrás dela, começa o exorcismo) Bendito que venha em nome do senhor! Ignoratia! Nemitur, Incendio Intracorporum. Ostra perfurante, veneno, tarrasca de abrolhos, téssera luminosa, arvoredo cautivo. Retrocede! Besta de satanás! Olim Faciebat! Príncipe das trevas! Bebe, animal traiçoeiro, o veneno do teu próprio sangue!

 (Durante o exorcismo, ouve-se um choro feminino. Assim que o exorcismo acaba canta-se a segunda parte do “Kyrie” novamente. O bispo sai. Siervas estão todas deitadas. Ouve-se Delaura correndo por detrás do véu, são quatro Delauras, e cada qual entra e caminha para uma Sierva. Enquanto ocorre o seguinte diálogo Martina entra em cena iluminada por uma quinta Sierva Maria, e escreve no chão: “Rezarei três vezes ao dia para que sejam felizes”)

Delaura: Jesus Amado, que horror! Por quê, Deus, não te apressas em castigar tamanha injustiça, tamanha crueldade? Estás machucada? Pobrezinha!Vim pelo túnel e escalei o muro só pra te ver. (pausa) No Apocalipse está anunciado o dia em que não amanhecerá nunca, queira Deus que seja hoje. (Martina termina de escrever e foge, a Sierva que a iluminava começa a rir) preciso ir. Já está amanhecendo, os pássaros já estão cantando lá em baixo. A Abadessa pode chegar e nos ver. Eu volto, eu juro que eu volto! Eu volto!

(Entra a Abadessa e observa a mensagem de Martina e Sierva Maria que ri a encarando as outras Siervas estão deitadas)

Abadessa: (entra e lê a frase escrita por Martina): Rezarei três vezes ao dia para que sejam Felizes. (constata) Martina. Martina fugiu, Sierva Maria? 
Sierva: Sim
Abadessa: Por onde criatura? Ela negociou com os teus demônios? 
Sierva: Sim...Aqueles que dançam, que riem, que cantam, que arem e fecham caminhos! (A menina cai e continua rindo)
Abadessa: Por onde ela fugiu criatura? Por onde? (Vê o túnel e corre em direção a ele) Despede-te das tuas esperanças, por este túnel ninguém nunca mais há de passar. 

(As cinco Siervas em cena dão seu último suspiro e morrem ouve-se os Delauras por trás dos véus chamando a menina: “Sierva?” “Sierva Maria?!” “Sierva!”. Risadas se sobrepõe a voz de Delaura e então todos os atores, como Exu, invadem a cena girando, dançando e rindo, formam um círculo, correm e saem de cena. Black out. Ouve-se então o primeiro diálogo da peça)

Martina: A minha esperança é em ti, criança, e em teus demônios. Quero saber quem eles são, como são. Quero negociar com eles.

 Sierva: Tenho seis: Asmodeo, Carreau, Maria Padilha, Astaroth, Sonneillon e Exu Tranca Rua!

Martina: Esse eu conheço! Quero falar com ele, dou minha alma em troca.

(Acendem-se as luzes da coxia e o foco central. Enxergamos os atores e a escrita de Martina no centro do espaço vazio.)