Sobre Mandingas e Marias

15 semanas com Maria Mandinga

por Grácia Navarro

 

“um poema profundamente politico não é macho nem é fêmea não é negro nem branco nem azul nem amarelo não é homo, nem hetero, nem bi, nem tri, nem tetra não é careta nem moderninho não é anarquista nem governista não é de centro nem periférico não é direito e nem gauche não é santo nem demônio é redemoinho ferido de fúria”

(André Monteiro)

 

“SOBRE MANDINGAS E MARIAS” parte de reflexões do ponto de vista do artista da cena, sobre a tensão cultural brasileira na gênese de projetos estéticos. Tensão cultural legada da colonização europeia, exploratória, escravagista, que se sobrepôs violentamente ao patrimônio cultural de índios e negros, catequizando as formas religiosas, de produção de conhecimento, o gosto e a estética. Essa tensão é localizada nos efeitos que esse legado produz na contemporaneidade, em uma mesma rede que envolve a produção artística brasileira, a exclusão social, cultural e econômica de milhões de brasileiros.

 

Para tanto aliamos em seu processo criativo culturas teatrais que implicam na apropriação, pelo sujeito/ator, de técnicas e estéticas que colocam em questão, o ofício do ator, o ponto de vista do discurso cênico, a escolha do que representar e o como fazê-lo. O processo criativo conduzido num trançado com Veronica Fabrini e Gina Monge, constituiu-se em uma sucessão de práticas, ao longo das quais a escritura cênica foi sendo realizada, descobrindo no fazer sua singular maneira de ser feita.

 

Adotamos a dinâmica de um processo colaborativo, identificados com Luis Alberto de Abreu em “Processo Colaborativo: Relato e Reflexões sobre uma Experiência de Criação”, artigo publicado em cadernos da Escola Livre de Teatro, junho, 2004. Em “Sobre Mandingas e Marias” a tecedura dramatúrgica foi construída pari passu com a concepção e apresentação de cenas teatrais a partir dos capítulos do romance “Do Amor e de Outros Demônios”, de Gabriel Garcia Marques. Esse foi o ambiente experimental de produção de conhecimento sobre o material de referência e, ao mesmo tempo, instância de apropriação, pelos atores, do jogo da interpretação enquanto estado de experiência.

 

A abordagem da interpretação enquanto estado de experiência está em consonância com o conceito de “corporeidade selvagem”, que tenho desenvolvido com a Verônica Fabrini e o Grupo Pindorama. Conceito que vem sendo elaborado a partir do cruzamento de aspectos rituais da performance teatral, com as técnicas e estéticas da cultura espetacular popular brasileira, na complexidade da sobreposição dos seus contextos de margem e resistência, de sagrado e profano, de comunal e particular.

 

“SOBRE MANDINGAS E MARIAS” resulta em uma peça ancorada em imagens e sons, na qual corpo, voz, palavra, espaço e visualidades estruturam seu jogo em uma dinâmica polifônica, na qual a presença cênica dos atores está alicerçada na interação entre “estar personagem” e “estar não personagem”. Presença continuada durante toda a duração da peça, criada por cada ator no seu trânsito individual entre cenas, contra regragem e iluminação. A performance de cada ator, reverbera um estado comunal que rompe as barreiras da cena incorporando a plateia que ocupa um dos círculos da arena que forma o espaço cênico da peça.

Foram 15 semanas de árduo trabalho! Para os atores semanas intensas dedicadas a concepção e realização da dramaturgia, cenografia, figurinos, equipamentos de iluminação, muitas horas laboratórios e ensaios... Sim! Eles costuraram, bordaram, lixaram, pintaram, tingiram, fizeram cabeamentos elétricos, programas, cartazes, captaram recursos... se fizeram TREZENCENA!!!

 

Chegamos ao final dessa etapa interna do processo criativo e estamos prontos e entusiasmados para fazer com o público e, aí então, ter a dimensão teatral da experiência