Encontro com Mestre Tião Carvalho

Nascido em Cururupu, no Maranhão, e radicado em São Paulo, Tião Carvalho é um dos grandes nomes de expressão da cultura popular brasileira. Traz para sua obra tanto a presença de palco aprendida na experiência como ator e dançarino, quanto o conhecimento construído através de suas pesquisas musicais. O cantor e compositor tem pelo menos duas aparições marcantes e definitivas na cultura maranhense e brasileira: é dele a voz em “Itamirim”, conhecidíssima toada de Chico Saldanha, um dos hinos do São João maranhense; e é dele a hoje já clássica “Nós”, imortalizada por Cássia Eller e gravada também por Ná Ozzetti e pelo próprio compositor.
Em 2000 chegou à semifinal do Festival da Música Brasileira, realizado pela Rede Globo, com a música “Quando Dorme Alcântara”, mas é em 2002 que seu primeiro CD solo é lançado, com o mesmo nome da canção e com produção do Selo Pôr do Som. Nesse disco, Tião equilibra os acentos regionais de sua música com a linguagem pop contemporânea, em uma contagiante diversidade de ritmos, mesclando as raízes brasileiras, sambas de roda, reggae, toadas de boi, baiões etc. O trabalho foi selecionado em 2004 para o prêmio Rumos da Música, promovido pelo Itaú Cultura e, em seguida, foi selecionado para a realização do projeto Pixinguinha pela Funarte, em que se apresentou ao lado de outros artistas em dez estados brasileiros, além de fazer turnê por diversos países da Europa.
Em 2006 celebrou a obra de um dos maiores compositores maranhenses de todos os tempos: João do Vale. O inspirado álbum Tião canta João [Por do Som/Atração, 2006] revê com a propriedade de quem, mais que conhecer, vivencia o trabalho que faz com prazer, fugindo das obviedades e pescando pérolas raras – como “Os óio de Ana Bela” – ou reinventando as músicas mais famosas do pedreirense, como “Carcará”, com um arranjo inovador em ritmo de bumba-meu-boi. Com patrocínio da Petrobras, através de edital de lei de incentivo, Tião canta João é resultado do mergulho profundo e sincero de Carvalho na obra de do Vale. Tanto é que não se limita a regravar “clássicos” do autor como “Pisa na fulô” (música que não entrou no disco), mas procura recriá-los e pesquisa músicas quase desconhecidas do vastíssimo legado deixado por João. No disco, Tião Carvalho vem acompanhado por Renata Amaral (baixo), César Peixinho (percussão), Adriano Busko (bateria), Marquinho Mendonça (cordas), além de 29 músicos convidados. Celebrando a música de João do Vale, com um discurso social extremamente forte e atual, que soa, antes de tudo, alegre e festivo, o disco contou ainda com as participações especiais de Zeca Baleiro, Trio Virgulino e Divina Batucada, sob direção musical de Rogério Rochlitz.
Outros trabalhos desenvolvidos pelo artista são atividades culturais e sociais no Morro do Querosene, na região do Butantã. Por essas e outras, em 2004, recebeu da Câmara Municipal de São Paulo o título de cidadão paulistano. É um dos fundadores dos grupos Cupuaçu e Banda Mafuá, com os quais também tem discos lançados. Há 25 anos com o Cupuaçu ele realiza em São Paulo anualmente as três festas do Bumba-meu-boi maranhense (Renascimento, Batizado e Morte do Boi). Tião Carvalho é mestre da cultura popular e realiza diversos trabalhos educativos, ministrando cursos e oficinas de danças brasileiras, em escolas, universidades, eventos, entre outros, em São Paulo e no Brasil. Nestes, dedica-se à pesquisa e transmissão das mais variadas manifestações da cultura popular, especialmente do norte e nordeste do país, como as danças de caixas (cacuriá, quadrilha, bambaê de caixa), ciranda de roda, bumba-meu-boi, tambor de crioula, maculelê e outras brincadeiras tradicionais.